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março 09, 2010

Sobre ontem...


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado

fevereiro 22, 2010

Falai de Deus


Falai de Deus com a clareza
Da verdade e da certeza
Com um poder

De corpo e alma que não possa
Ninguém, à passagem vossa,
Não o entender.

Falai de Deus brandamente,
Que o mundo se pôs dolente,
Tão sem leis.

Falai de Deus com doçura,
Que é difícil ser criatura:
Bem o sabeis.

Falai de Deus de tal modo
Que por ele o mundo todo
Tenha amor.

À vida é à morte, e, de vê-lo,
O escolha como modelo
Superior.

Com voz, pensamentos e atos
Representai tão exatos
Os reinos seus

Que todos vão livremente
Para esse encontro excelente.
Falai de Deus.

Cecília Meireles

fevereiro 17, 2010

Valsinha


Chico Buarque / Vinícius de Morais

Um dia, ele chegou tão diferente
do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto
era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto,
pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como
há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando
a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como
há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça,
foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança
que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos,
tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

fevereiro 05, 2010

Grande sertão: Veredas

Hoje pela manhã no Repórter ECO da TV Cultura a apresentadora citou o comecinho desse texto de Guimarães Rosa... Já tinha lido antes, mas como sempre acontece comigo, algumas coisas que eu já li, passam a ter um novo significado, quando depois de um tempo, leio de novo...


"O correr da vida embrulha tudo,
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
O que Deus quer é ver a gente
aprendendo a ser capaz
de ficar alegre a mais,
no meio da alegria,
e inda mais alegre
ainda no meio da tristeza!
A vida inventa!
A gente principia as coisas,
no não saber por que,
e desde aí perde o poder de continuação
porque a vida é mutirão de todos,
por todos remexida e temperada.
O mais importante e bonito, do mundo, é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas,
mas que elas vão sempre mudando.
Afinam ou desafinam. Verdade maior.
Viver é muito perigoso; e não é não.
Nem sei explicar estas coisas.
Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor."

A gente quer passar um rio a nado, e passa:
mas vai dar na outra banda é um ponto muito mais em baixo,
bem diverso do em que primeiro se pensou.
Viver nem não é muito perigoso?
Dói sempre na gente, alguma vez,
todo amor achável,
que algum dia se desprezou...
Qualquer amor já é um pouquinho de saúde,
um descanso na loucura."

Guimarães Rosa em "Grande sertão Veredas"

dezembro 06, 2009

Lembrança...

...Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor...

julho 27, 2009

Entre prata e ouro



Um silêncio entre risos e sons
Entre olhares que se perdem no sem fim
O Silêncio do incerto, do que não se sabe, do incompreensivel
Silêncio nos olhos, nos lábios meus e seus
Daqueles que afastam, castigam e desperdiçam (ou não).
Mas ao procurar as palavras elas desaparecem como quem foge do mal...
Mas é um silêncio que se deve considerar sensato.
O som das palavras é coisa séria
Porque quando a palavra é dita mesmo sendo inverdade para quem diz,
muitas vezes se torna verdade pra quem ouve.
Então enquanto não houver certeza talvez seja melhor manter o silêncio.
Um silêncio entre risos e outros sons.

Vanessa Padilha

Li em algum lugar: "Porque a palavra é de prata, mas o silencio é de ouro"...

Uma curiosidade: Klimt em sua arte usava ouro e prata... Suas obras literalmente brilharam ao incluir a sutuosidade de folhas de ouro e prata em telas inspiradas nos mozaicos bizantinos.

julho 22, 2009

Vincius...

O haver

(Vinicius de Moraes)

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.

15.04.1962


in Poesia completa e prosa: "Poesias coligidas"